O mercado de leilões de imóveis no Brasil tem ganhado atenção crescente nos últimos anos, atraindo investidores e interessados que buscam comprar imóveis por preços teoricamente abaixo do valor de mercado.
Esse crescimento vem sendo impulsionado por fatores macroeconômicos, como aumento da inadimplência e necessidade de instituições financeiras e credores quitarem obrigações por meio da alienação de ativos. Segundo reportagem do jornal O Tempo, os leilões de imóveis cresceram cerca de 25% em 2025.
Apesar das oportunidades de preço, a participação em leilões de imóveis envolve riscos específicos, como questões jurídicas pendentes sobre a propriedade (como ações petitórias), ônus reais não evidenciados e condições de pagamento que variam conforme os tipos de leilão de imóveis. Por isso, a tomada de decisão exige informação técnica sólida e análise criteriosa.
O que é leilão de imóveis
Leilão de imóveis é um procedimento formal de venda de um imóvel ao maior lance, geralmente realizado para quitar dívidas ou alienar ativos, com transparência e publicidade do procedimento. Pode ocorrer de forma judicial, extrajudicial, pública ou particular, sendo que cada tipo de leilão de imóveis possui características próprias.
Trata-se de alternativa ao mercado tradicional de compra e venda de imóveis e, no Brasil, é regulado por normas legais e procedimentos específicos, variando conforme a origem da alienação e o tipo de leilão imobiliário.
Por que imóveis vão a leilão?
Existem diversas situações que podem levar um imóvel a ser ofertado em leilão. Os principais motivos que levam um imóvel a leilão incluem:
- Inadimplência com financiamento imobiliário (alienação fiduciária) ou empréstimos garantidos por hipoteca;
- Dívidas judiciais decorrentes de execução fiscal, cível ou trabalhista;
- Recuperação de crédito por instituições financeiras, fiduciantes ou credores em ações de execução;
- Alienação de ativos por empresas em recuperação judicial como forma de arrecadar caixa.
A origem da dívida influencia diretamente no tipo de leilão, no prazo para arrematação, nas condições de pagamento e na etapa processual em que o imóvel é disponibilizado.
Tipos de leilão de imóveis e como funcionam
A compreensão das diferentes modalidades de leilões é essencial para o investidor que busca oportunidades com segurança jurídica.
Os principais tipos de leilão de imóveis no Brasil são:
Leilão judicial
Nos leilões judiciais, a alienação decorre de procedimento de execução, falência, extinção de condomínio ou, por exemplo, de processo de inventário/partilha, determinado por um juiz. O edital é publicado pelo oficial de justiça ou pelo cartório/foro responsável, com todas as informações disponíveis sobre o bem e as dívidas associadas.
Etapas principais: publicação de edital, visita técnica, realização de lances, arrematação, homologação judicial e pagamento conforme condições previstas no próprio edital.
Leilão extrajudicial
O leilão extrajudicial ocorre fora do ambiente de um processo judicial, geralmente em razão de inadimplemento de contrato de financiamento com cláusula de alienação fiduciária ou outra garantia. Instituições financeiras e credores contratualmente habilitados promovem a venda para quitar o crédito inadimplido.
A condução pode ser feita por empresa especializada em leilões, mas segue regras previstas no Código de Processo Civil e em normas específicas da alienação fiduciária, como a Lei nº 9.514/1997.
Leilão de imóveis públicos
Governos e entidades públicas promovem leilões para vender ativos imobiliários inservíveis ou excedentes ao interesse público.
Esses leilões observam regulação administrativa específica, com critérios de publicidade, propostas e habilitação de interessados, e seguem normas de licitação e alienação de bens públicos.
Leilão particular
O leilão particular é a modalidade em que pessoas físicas ou jurídicas contratam casas de leilão para ofertar imóveis sem vínculo direto com massa falida, execução ou dívida. São eventos organizados por operadores privados que atuam como intermediadores da venda e estabelecem as regras do certame por meio de edital próprio.
Nessa hipótese, o imóvel é alienado por iniciativa do proprietário, o que pode conferir maior flexibilidade nas condições de pagamento e negociação; por outro lado, exige análise criteriosa da documentação, da regularidade registral e da reputação do leiloeiro, já que as garantias jurídicas decorrem essencialmente da boa formalização do negócio e da solidez do procedimento adotado.
Leilão online
O leilão online, ou leilão eletrônico, não é um tipo distinto, mas uma forma de realização de qualquer das modalidades acima. Com a digitalização, muitos leilões judiciais, extrajudiciais e privados são realizados em plataformas eletrônicas, com acesso remoto de interessados e facilidade de participação.
Vantagens e desvantagens de cada tipo de leilão de imóveis
Cada modalidade apresenta características que impactam preço, burocracia, riscos e condições de aquisição. Veja os principais prós e contras de cada tipo de leilão de imóveis:
- Leilão judicial: pode oferecer descontos maiores e garantia de transparência processual; entretanto, exige análise detalhada de ônus e eventuais ações pendentes.
- Leilão extrajudicial: costuma ter trâmites administrativos mais céleres e condições de pagamento previstas em contrato; por outro lado, o risco jurídico pode envolver cláusulas contratuais e exigibilidade de dívidas acessórias.
- Leilão público: normalmente bem regulamentado, mas pode ter regras administrativas rígidas e menor margem de negociação.
- Leilão particular: pode ser mais flexível em condições de venda; todavia, depende da robustez dos mecanismos de garantia e da reputação do leiloeiro/operador.
Descontos médios variam conforme a modalidade, localização e natureza do imóvel. Por exemplo, descontos em leilões judiciais frequentemente são maiores no início do certame, mas diminuem em posteriores até a arrematação. Independentemente disso, o possível “desconto” não elimina riscos como ônus reais não declarados, ocupação do imóvel por terceiros ou questões de usucapião.
Apesar das diferenças entre os tipos de leilão de imóveis, há um ponto comum a todas: a necessidade de due diligence prévia rigorosa. Independentemente de ser judicial, extrajudicial, público ou particular, o investidor deve analisar matrícula, edital, situação de posse, débitos incidentes e eventuais disputas judiciais relacionadas ao imóvel.
Impacto no risco conforme o tipo de leilão de imóveis
O impacto no risco varia conforme o tipo de leilão de imóveis, especialmente em razão da origem da venda, da forma de consolidação da propriedade e das regras previstas no edital. Veja o quadro comparativo a seguir:
| Tipo | Risco Jurídico | Complexidade | Oportunidade |
| Judicial | Médio a alto | Alta | Maior desconto |
| Extrajudicial | Médio | Média | Procedimento mais rápido |
| Público | Baixo a médio | Média | Regulamentação clara |
| Particular | Variável | Depende do operador | Negociação possível |
Em todos os casos, o risco não é necessariamente impeditivo – mas precisa ser identificado, mensurado e precificado antes da decisão de investimento.
Como identificar boas oportunidades em leilões de imóveis
Uma boa oportunidade não se limita à menor oferta de preço, mas à combinação entre preço, segurança jurídica e viabilidade financeira ou de uso. Critérios objetivos para avaliar se vale a pena comprar imóvel em leilão incluem:
- Análise do edital e identificação do tipo de leilão e alinhamento de expectativas quanto ao procedimento (tempo, burocracia e riscos);
- Levantamento de registros no cartório de imóveis para verificar matrícula atualizada e a certidão de ônus reais;
- Análise de débitos tributários e condominiais, que geralmente acompanham o bem e não necessariamente a pessoa do proprietário;
- Verificação de ações judiciais incidentes sobre o imóvel;
- Avaliação de potencial de uso, liquidez e mercado local;
- Compatibilidade entre preço de arrematação e custos adicionais necessários para eventual regularização imobiliária ou desocupação (a depender do caso, pode ser necessário promover a imissão na posse em leilão).

Há também algumas perguntas estratégicas para se fazer antes do lance:
- Esse imóvel tem potencial de valorização real?
- Eu tenho caixa para sustentar eventual demora?
- Estou comprando ativo… ou problema?
- Este negócio depende de sorte ou de estratégia?
É necessário se atentar não apenas ao percentual de desconto anunciado, mas, sobretudo, à viabilidade jurídica da aquisição. Em leilões, a diferença entre oportunidade e prejuízo costuma estar nos detalhes – e é justamente nessa fase prévia que uma avaliação técnica adequada pode evitar riscos ocultos, custos inesperados e entraves futuros na regularização ou revenda do bem.
Contar com assessoria jurídica especializada ao longo de todas as fases – desde a análise pré-edital até a arrematação e registro do imóvel – pode ser o diferencial entre um negócio vantajoso e um prejuízo decorrente de negligência na diligência.

Conclusão
Os leilões de imóveis representam um segmento em expansão no Brasil, impulsionado pelo ambiente econômico e pela necessidade de credores quitarem dívidas por meio da alienação de ativos.
Contudo, os riscos inerentes a essas operações, que inclusive variam conforme o tipo de leilão de imóveis, exigem informação qualificada e análise criteriosa dos aspectos legais, financeiros e práticos antes de qualquer participação.
Investidores que combinam diligência, conhecimento técnico e suporte especializado diminuem significativamente a probabilidade de surpresas indesejadas e aumentam a chance de capturar oportunidades que, de fato, se traduzam em valor patrimonial.
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Marcelo Camara
Mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). Professor de Direitos Reais da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.
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